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Lorpa quase-erudito

Escaninho quase tão oco como um ovo que não chocou.

Escaninho quase tão oco como um ovo que não chocou.

Divagar devagar #4 - Olhar duas vezes.

hands dirt

 

No outro dia estava cansado e deitei-me depois do almoço. Tinha os olhos estranhos.

Não eram olhos, via o mundo mais embaciado ainda. Duas sementes. Duas enormes sementes secas e esverdeadas em forma de ovo. Ignorei tanto quando pude, antes da vontade de querer ver limpo levar a melhor.

Com cada uma das mãos fui até ao lugar dos olhos. Não compreendi. Toquei devagar em ambos e nenhum doía. Estavam em mim mas não estavam ligados em mim. Estavam apenas ali, a atrapalhar o que vejo.

Mexi-lhes mais, explorei mais, como uma criança que abana um dente de leite até este ceder e cair. E os meus olhos, que eram as sementes, caíram também. Ali os tinha, nas mãos. Via-os lá e não sabia explicar como. Achei saber o que fazer com eles.

No quintal, cá fora, cavei dois pequenos buracos e enterrei-os. Dei-lhes de beber e esperei. Esperei horas. Depois dias. Depois semanas. Talvez meses, como poderei saber? Não aconteceu nada.

Cansado de esperar e cada vez mais cego, escavei em busca do que já foram os meus olhos. Não estavam lá. Não estavam lá e temi não voltar a tê-los. E agora? O que é que me deu na cabeça para enterrar os olhos? Nem sequer pensei que talvez fosse apenas um mal passageiro. E agora? Fico cego? Para sempre? Fico cego e nunca mais vou ver o mundo.

Acordei do sonho. Tinha os olhos que sempre tive, eram os meus e via bem. Que alívio inexplicável. Levantei-me e alcancei o meu caderno de apontamentos. Escrevi em letras grandes: "Nunca mais me vou esquecer de ver o mundo com os meus olhos, sejam eles como forem". Arranquei a folha e dobrei-a ao meio. Vim até à rua de Sol quente no dia. Cavei um pequeno buraco, amarrotei a folha e enterrei-a. Dei-lhe de beber. E fiquei à espera para ver o que dali nasceria.

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O gajo

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