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Lorpa quase-erudito

Escaninho quase tão oco como um ovo que não chocou.

Escaninho quase tão oco como um ovo que não chocou.

Divagar devagar #8 - Deixar as botas para trás.

Esperei por ti na encruzilhada das estradas. Em pé, firme, como se disso o meu sangue dependesse. No meu capote - debaixo dele - havias tu e a tua falta. Um calor que nao me aquecia a pele. Recordei o barco a remos e os pães torrados, todo um hálito a alho. Um nada de obstáculos, algures nos tempos de outros dias.

Aqui, no cruzamento das escolhas, nao há placas com quilómetros. Nao há uma carroça que passe e me dê boleia para um destino qualquer desconhecido. Estou eu, o meu capote e a tua ausência. Encontro a navalha num dos bolsos de dentro desta capa frouxa. Estou guiado. Desenho a letra inicial do teu nome na bota esquerda e descalço-a logo em seguida. Tiro depois a direita onde rabisco outra inicial, desta vez do meu nome, do que ainda me lembro dele na tua voz. E olho ambas as botas, lado a lado. Juntas. Numa noite leve de escuridão, densa de lembranças.

Penso em como as botas, quando em pés, caminham juntas sem se tocarem. Apenas complementares, companheiras. Mas ali, naquela visão, ali elas tocam-se e ficam ligadas. Dependência sentimental forçada, será que estão melhor assim?

Parto descalço, sinto o frio da terra molhada. Não estranho o chão aguçado das pedras, as pequenas dores na sola dos pés são quase apetecíveis.

Calejar o corpo, que ânsia! A necessidade de encontrar uma dor física, castigar as mãos pérfidas. E no meio desta encruzilhada de caminhos pouco emparelhados, suspiro cá dentro: era tão mais fácil quando bastava pegar no barco a remos...

 

botas

 

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