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Lorpa quase-erudito

Escaninho quase tão oco como um ovo que não chocou.

Escaninho quase tão oco como um ovo que não chocou.

Relato exagerado d'um infantil

Durante a semana passada fui visitar e inscrever-me na Biblioteca Municipal de Leiria, dado que irei aqui morar durante os próximos tempos. Como trouxe alguns livros do Alentejo não planeava trazer mais comigo, ia apenas conhecer o espaço e bisbilhotar as estantes. 

Depois de feita a inscrição, a funcionária (muito simpática, é importante referir) falou-me das várias salas existentes. Explicou-me os cantos da casa, digamos assim.

 

Posto isto, dirigi-me à sala de leitura dos adultos. Não me perguntem porquê que eu também não sei, mas logo depois de entrar veio-me à memória a capa de "O Homem que Plantava Árvores". Assim, do nada. Lembrei-me também de ter lido uma review algures pelo Goodreads e de ter ficado com vontade de ler o livro.

Nada acontece por acaso e se me tinha lembrado do livro naquele momento por algum motivo seria. Decidi que iria levá-lo caso fizesse parte da oferta da biblioteca. Fui vagueando pela sala, vasculhando as estantes e marcando alguns alvos futuros.

Entretanto não me conseguia lembrar do autor, só me recordava que tinha dois nomes semelhantes e isso não ajudava em nada. Peguei no telefone e rapidamente verifiquei: Jean Giono. Sempre tinha dois nomes parecidos.

Dirigi-me aos "Gês" e procurei o livrinho. Nada. «Porque é que o raio do livro me veio à cabeça se a biblioteca não o tem?». Nesse momento, a funcionária daquela sala apareceu atrás de mim e perguntou-me se precisava de ajuda.

- Olá. Por acaso preciso, como é que adivinhou?

- Porque vejo que procura, procura, e ainda não encontrou o que quer - respondeu-me.

- Tem razão. Estou a tentar encontrar "O Homem que Plantava Árvores", de Jean Giono. Têm?

- O título não me é estranho, deixe-me ir ver. Acho que temos.

 

A senhora voltou pouco depois com um papelinho escrito à mão.

- Nós temos esse livro, mas não está aqui. Está no andar de cima, na sala de leitura infantil. É só subir aquelas escadas - apontou as escadas, que eram próximas da entrada daquela sala - e entregar este papel à minha colega. O papel continha a referência e a estante que albergava o livro infantil que, eu, queria requisitar.

O meu primeiro instinto foi responder "Muito obrigado, o meu filho vai adorar". Depois lembrei-me que com a quantidade de barba que apresento, ninguém iria acreditar que já teria um filho com idade para ler. Corrijo: que já teria um filho, assim é suficiente.

 

Ao invés disso, fiquei-me por um automático "Obrigado. Vou já lá então."

Pelo caminho, enquanto deixava para trás a funcionária e também o meu orgulho, pensava «Bem, infantilidade por infantilidade, se calhar vou mas é embora e não levo o livro. Espera!, vou dizer que é para ler a um sobrinho meu que vai agora entrar para o 1º ano. É isso mesmo!». Por esta altura já ia a subir as escadas e já tinha deixado passar a oportunidade, uma espécie de vida em ponto bibliotecário.

 

Lá fui ter com a funcionária da sala de leitura infantil, lá entreguei a vergonha o papel, e lá trouxe o livro.

Enquanto descia as escadas, sentia que a cada degrau deixava cair mais um pouco de dignidade, sentia que deixava um rasto invisível de honra a cada passada. Por isso, e como uma infantilidade nunca vem só, ao chegar ao fundo das escadas decidi regressar às estantes dos adultos e trazer de lá outro livro também. Só para equilibrar a coisa.

Fui aos "Émes" ver de algum Murakami, e peguei instintivamente no "Sputnik, meu amor".

 

E pronto, no fim de contas, após requisitar ambos os livros e já cá fora a caminhar, pensava em como a única atitude não infantil (a de querer requisitar um livro que por acaso fazia parte da secção infantil), desencadeou um conjunto de acções próprias de criança e, aí sim, verdadeiramente infantis.

Foi isto. A primeira vez que entrei na Biblioteca de Leiria foi isto. Já valeu a pena ter lá ido.

 

kids

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