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Lorpa quase-erudito

Escaninho quase tão oco como um ovo que não chocou.

Escaninho quase tão oco como um ovo que não chocou.

Teremos todos esta chama?

Ontem, durante a leitura "pré-caminha", apanhei um daqueles parágrafos que me dão vontade de sair porta fora, correr até ao centro de cópias mais próximo, arrombar a fechadura, e fazer de uma impressora minha refém.

Depois, leio-lhe pausadamente (à impressora) a passagem em questão:

 

Cada um de nós possui qualquer coisa de especial, que se revela numa determinada altura da nossa vida, e só uma vez, como uma pequenina chama. As pessoas precavidas, abençoadas pela fortuna, conservam religiosamente essa chama, fazem-na crescer, usam-na como uma tocha que ilumina as suas vidas. Mas uma vez apagada, ela não voltará nunca mais a acender-se.

 

Garantido o Síndrome de Estocolmo, peço-lhe que me imprima o maior número de cópias possível. Ela (a impressora) imprime desenfreadamente até surgir uma mensagem da necessidade de trocar os toners. Pego no molho das folhas, olho à minha volta e consigo discernir uma prateleira com tinteiros expostos. Agarro dois deles e ofereço-lhos (à impressora) como forma de agradecimento. A intenção seria boa se os tinteiros lhe servissem, mas com a pressa nem me lembrei que era de toners que (a impressora) precisava.

Saio em direcção ao silêncio da noite: eu, o molho das folhas, uma caneta azul e uma convicção inexplicável. À frente de cada porta retiro uma folha, a primeira em que parei tinha o número 59. Escrevo logo abaixo da citação impressa: "Qual é a pequenina chama de quem mora na porta nº 59?", dobro a folha e enfio-a na caixa de correio. Faço o mesmo na porta 57, logo ali ao lado. E na 53, na 51, na 49...

 

Não me lembro de muito mais que isto. Acordei de manhã com a sensação de ter deambulado a noite toda pelas casas das pessoas, qual carteiro da noite. Não me sentia um invasor, sentia ter feito o necessário. Seria tão bom que todos nós conservássemos esta chama.

 

E vocês, o que fizeram à vossa "pequenina chama"?

 

our flame

 

Nota: A citação faz parte de Sputnik, meu Amor de Haruki Murakami.

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