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Lorpa

Lorpa

Divagar devagar #9 - O ciclo da vida.

Na abundância da juventude, agarrei os estímulos em forma de ideias. Simpatizo com impulsos desde que julgo existir, e simpatizar é um patamar supremo da admiração.

Numa tarde, dessas em que sentia o fulgor da novidade, o sol competia com os termómetros da febre. Enrolei um impulso nas mãos e escondi-o no bolso da camisa. Aquele era secreto, não podia arriscar mãos alheias no bolso. A urgência de um novo esconderijo tremia-me algures nas bandas do coração.

A laranjeira das laranjas grandes era perfeita. Saltei dois ramos e, lá no meio, oculto nas folhas, saquei do impulso. Desenrolei-o, era um emaranhado de ilusões. Se não as reconhecesse, iria jurar que eram apenas raízes. Pendurei-as ali mesmo, no coração da árvore, cobertas pela densa copa de folhas verdes e rijas. As raízes, os impulsos, ansiavam aquele lugar. Um combustível de vida infinita e vigorosa. Decisão feliz, pensei. A minha. As minhas ilusões.

Do tempo que se me escapou depois, do turbilhão de sensações, das recordações descoladas à força, do caminho fugaz em obras de reconhecimento, de tudo isto e tanto mais, pouco gravei.

Na selectividade autónoma do nosso livro das memórias, procuro o corrector desconhecido ao mundo. A tinta branca mais forte que os parágrafos quase negros que marcamos nas folhas. E que deixe ir apagar aquele parágrafo em que sei estar escrito: "A laranjeira já tinha dado poucas no ano passado. Foi perdendo as folhas. Este ano nem uma única laranja tem. Não floriu, está doente. A copa sumiu, está nua. O tronco teme o sol que derrete."

E eu sei, secou-se. Um dia semente na geração dos pais dos pais, hoje toco aos olhos dos filhos dos filhos. Um assento de cansares à espera de ninguém.

 

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